Uma nova espécie de sagui acaba de ser descrita no Brasil: é o sagui-dos-Munduruku. O animal pertencente ao gênero Mico foi descoberto pelo pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e Universidade Federal do Amazonas, Rodrigo Araújo, durante expedições de campo ao sudoeste do Pará.
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Espécies do gênero Mico |
“Ao todo, foram dez expedições de campo no meu trabalho de doutorado, sendo que quatro destas incluíram áreas no interflúvio do Tapajós-Jamanxim, região de Itaituba e Jacareacanga. Na primeira jornada por lá encontrei com esses saguis. Logo que observei com binóculos percebi que eles eram diferentes e que poderiam ser uma espécie nova”, conta.
A diferença que saltou aos olhos do estudioso, à primeira vista, foi a coloração dos pelos dos primatas. “O rabo deles eram totalmente brancos, e esta é uma condição muito incomum em primatas na América do Sul”, acrescenta.
O primeiro encontro com o grupo pequeno de três macacos foi em 2015 e, a partir daí, Rodrigo se dedicou a fundo às pesquisas para avaliar se os saguis encontrados em campo tratavam-se de uma nova espécie ou não.
Após anos realizando expedições em áreas do arco do desmatamento, diferentes exames com sequenciamento do DNA dos primatas, estudos sobre a distribuição geográfica e visita a museus do Brasil e do Exterior - onde foram comparadas a pelagem de exemplares de primatas tombados - a pesquisa foi concluída com sucesso.
Esse conjunto de ações comprovaram que este sagui é a mais nova espécie da Amazônia brasileira. A notícia foi confirmada, mas os estudos sobre o novo macaco só estão começando.
"Os próximos passos são descobrir quantos saguis-do-Munduruku existem, avaliar o status de conservação deles, e coletar dados sobre comportamentos e dieta da espécie. É preocupante que, assim que descobrimos uma espécie nova, já precisamos nos preocupar com sua sobrevivência"
A falta de informações e estudos sobre os saguis da região amazônica levou o profissional a realizar a pesquisa de doutorado para identificar quantas espécies de saguis existem na Amazônia, quais são elas e onde estão distribuídas. Um dos objetivos do pesquisador é entender por que a diversidade na região é tão grande em relação a outras áreas.
Este trabalho é um sonho que ele tinha desde a infância e a grande descoberta dessa nova espécie foi a coroação dos esforços, tempo e recursos investidos ao longo de sua vida e dos quatro anos de doutorado.
“O doutorado foi a forma que eu encontrei de realizar o sonho da minha vida de, um dia, poder fazer um trabalho na Amazônia que pudesse colaborar com a preservação desse domínio. Esse trabalho por si só já é gratificante. Ser coroado com uma espécie nova, então, é fabuloso, uma emoção indescritível”, comemora.
Para Fabiano Rodrigues de Melo, professor do Departamento de Engenharia Florestal da Universidade de Viçosa (MG) e coautor da descrição do sagui-dos-Munduruku, a descoberta da nova espécie é inovadora e serve de apelo à proteção das florestas.
“A descoberta é um fato incrível por si só, mas mostra o pouco que a gente conhece da biodiversidade. Por se tratar de um primata é algo inovador e mais inesperado ainda. A gente pode usar a descrição de novas espécies para melhorar o delineamento de proteção de áreas dentro da própria Amazônia.", comenta.
Conhecendo melhor a biodiversidade temos mais condições de propor reservas, áreas protegidas para que tenhamos essa biodiversidade como um todo, protegida
— Fabiano Melo
A pesquisa liderada por Rodrigo Araújo e os orientadores Tomas Hrbek e Izeni Farias contou com o apoio do Laboratório de Evolução e Genética Animal da Universidade Federal do Amazonas, e com a colaboração de diversos pesquisadores de universidades federais do Brasil e de institutos de pesquisa e conservação da Inglaterra e Estados Unidos.
Sagui-dos-Munduruku
O nome sagui-dos-Munduruku é uma homenagem aos indígenas Munduruku e faz referência à distribuição geográfica da espécie.
Endêmico do Sul da Amazônia, o sagui ocorre em uma área de aproximadamente 120.000 km², a partir da margem esquerda do Rio Jamanxim, abaixo da foz do Rio Novo, até a margem direita do alto Rio Tapajós, abaixo da foz do Rio Cururu. “Aproximadamente metade da área de distribuição dos saguis cai dentro das terras dos Munduruku”, comenta o pesquisador Rodrigo Araújo.
Mas muito mais do que um nome, a menção traz ainda uma relação importante entre os indígenas e a espécie descoberta.
As florestas das quais ambos dependem estão sofrendo ameaças nessa área. Respeitar a terra indígena e, cumprir com o papel de proteção aos indígenas Munduruku é uma forma de proteger também os saguis e toda a biodiversidade da região
— Rodrigo Araújo
Ainda não é possível saber o status de conservação do sagui-dos-Munduruku, se é considerado vulnerável ou não, mas é fácil perceber quais são as principais ameaças à espécie. “A região onde eles ocorrem tem uma influência muito grande de garimpo de ouro, madeireiros, e produtores rurais. Há um grande desmatamento visivelmente ocorrendo no local”, afirma.
Proteção dos sagui
Além da pesquisa do doutorado, Rodrigo Araújo é coordenador de um projeto de proteção a estes primatas. “Criei o Projeto Saguis da Amazônia com o intuito de entender as ameaças às quais estas espécies estão sujeitas, e desenvolver estratégias para sua conservação e das florestas onde ocorrem, o que passa por aumentar a conscientização das pessoas sobre as espécies de saguis e a importância da floresta."
Confira o artigo na íntegra acessando o link: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/especiais/noticia/2019/08/01/nova-especie-de-sagui-e-descoberta-em-um-dos-pontos-mais-desmatados-da-amazonia.ghtml